A Maternidade não é uma obrigação – É uma Escolha

Conheço muitas mulheres. Algumas são tão minhas que lhes chamo família. Hoje, quase todas são mães — e das boas, daquelas que fazem parecer fácil. Mas nem sempre o quiseram ser. A maternidade não fazia parte dos planos. Tinham relações sólidas, casa, carro, carreira. Tudo no sítio. O que faltava? Nada. Até que o tal “relógio biológico” decidiu tocar o alarme, mas….

Hoje falamos da opção de não escolher esse caminho.Dizem que ser mãe é o auge da feminilidade. Dizem também que não existe amor maior, nem realização mais pura.

Mas, a quantas de nós, em algum momento da vida, nos perguntaram se queríamos sentir isso?

Desde miúdas, empurram-nos bonecas como se fossem manuais de instruções: “Cuida bem do teu bebé”, dizem, como se o instinto materno viesse no ADN, ao lado do verniz cor-de-rosa e dos saltos altos de brincar.

Por trás desta doçura, esconde-se uma armadilha: a ideia de que todas as mulheres nasceram para cuidar, amar e servir.

Não nascemos!Dizer “não quero ter filhos” é um murro no estômago para muita gente.
E o pior não são os olhares da tia afastada, com o seu tom arrogante, nem o avô que insiste que eu ainda vou mudar de ideias.
O que irrita mesmo é ouvir frases como:“Ainda és muito nova.”
“Deixa de ser egoísta.”
“Tens de pensar no teu futuro.”
Ou aquela clássica, vinda de mulheres que já são mães:
“Estás parva? Não sabes nada da vida. Não existe nada melhor do que o amor por um filho.”

Quantas de nós, mulheres com mais de 30 anos, já ouvimos:

“Vais mudar de ideias quando fores mãe.”
“O teu relógio biológico ainda vai despertar.”
“Se não tiveres filhos, o que vai ser de ti?”

Hoje exigimos que as mulheres sejam tudo ao mesmo tempo, mães, donas de casa, esposas e profissionais exemplares mas em momento algum perguntamos o que elas querem da sua vida.

Será que a pergunta “Queres ter filhos?” deve sequer sair da boca de alguém?
Quão íntima pode ser esta questão?
A mulher pode não querer. Pode não conseguir. Pode estar num tratamento. Pode haver tanta coisa… e, na verdade, ninguém tem nada a ver com as suas escolhas.Não existe nenhum gene que obrigue alguém a desejar filhos.Existe, sim, uma cultura que teme mulheres demasiado livres — mulheres que trocam o berço por um passaporte carimbado, o “já está na hora de casar” por uma viagem sozinha, e a culpa por um perfume caro e uma noite de sono bem dormida.Ser mãe é uma escolha.Não ser mãe também é.E nenhuma das duas precisa de explicação, muito menos de aprovação.Quando observo as mulheres-mães, vejo o tal amor incondicional, a proteção, a preocupação…
Mas também vejo cansaço, falta de tempo próprio, uma cabeça que não pára, uma rotina desgastante que se repete, repete e repete.
Entre fraldas, noites mal dormidas, sopas e escolas, lá encontro a mulher, nos seus dez minutos de sossego a tentar reencontrar o seu “eu”.Não quero isso para mim.
Digo-o com certeza, com a firmeza de quem sempre escreveu o guião da sua vida.
A maternidade é uma escolha e eu escolho não seguir.Sou menos mulher por isso?

Entretanto, quem decide não ser mãe é alvo de perguntas “preocupadas”:

“E se um dia te arrependeres?” “E quando envelheceres, quem vai cuidar de ti?”

Como se a maternidade fosse um seguro de vida e não uma escolha íntima.

A mulher sem filhos não é fria, incompleta, egoísta, despreocupada, arrependida ou amargurada e tantos outros adjetivos que já ouvi.As mulheres que escolhem não seguir o caminho da maternidade são apenas donas da sua própria história.A mulher que escolhe não ser mãe não é menos mulher nem menos capaz do que as que são mães.Essa mulher sem filhos não é mais nem menos, não é mais egoísta por se escolher é apenas uma mulher que decidiu quebrar padrões e escrever uma história menos comum.Trocar noites em branco por uma maratona de séries.Trocar biberões ou sopas por uma refeição rápida no sofá.
Trocar a corrida diária entre escola e trabalho por um fim de tarde numa esplanada, com um livro.
Trocar as férias caóticas de agosto por umas boas férias em fevereiro.

Não é luxo. É uma escolha.

Não ser mãe não me faz menos mulher.Somos todas mulheres, com escolhas diferentes.

E a magia de ser mulher é precisamente isso — poder escolher a própria narrativa e viver a vida que queremos ter.

Tu, mulher que não quer ter filhos, quando te chamarem de egoísta… sorri.Nada é mais ameaçador do que uma mulher que não deve nada a ninguém, nem um filho, nem uma explicação, nem um pedido de desculpa por existir à sua maneira.Ser mãe pode ser lindo, transformador, um mergulho profundo no amor.Mas não ser mãe também é.O empoderamento não está na maternidade. Está na autonomia.Está na mulher que decide no seu tempo, no seu corpo, no seu caminho.A maternidade não é o auge da feminilidade. É apenas uma das possibilidades.
Ser mãe pode ser empoderamento.
Não ser mãe também.

Que cada mulher escolha o seu próprio caminho: com filhos, sem filhos, com sonhos, com paixões, com liberdade.

Porque ser mulher nunca foi sobre servir a vida foi, e sempre será, sobre vivê-la por inteiro.

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